IV


Desenredar um colar de contas como encantasse as horas da insônia. Pesado, meu corpo rola no escuro do quarto, que se funde ao escuro do deus pelo fio delgado da seiva do tempo. No fundo fico repetindo o começo de um romance que nunca terminei, procurando em mim mesmo a invenção que já se deflagrou, e que me compõe como a água e o silício. E por ter me trazido até aqui, esta idéia difusa que me orienta, é também um limite, um orla rasa onde meus pés começam já a pisar o solo poroso e quente que me obriga um corpo denso, que por sua vez me obriga sentidos afeitos à suspeita ordem geométrica, que me obriga ainda,  a distração dos peixes, a gana dos gatos.
Então me elevo, mamífero superior, mandíbulas aptas ao canto - não há verdade fora do canto - carregando nas mãos a lira e o astrolábio. E quanto mais distante me precipito, mais os meus contornos rarefazem, me tornando idêntico ao que já era no princípio. Mas neste ponto você já adormeceu, e a noite nos separa em dois reinos - a pura exterioridade dos objetos inertes, a interioridade eloquente metafísica dos tolos.

logos

ver surgir do ilógico arremedo a fina dialética
                         como no malogro
                         do malogro
                         vir milagre
                                        eis a minha
                         vagabunda ocupação:

                              fazer nascer o sim
                                    plantando não

O poeta não está

o poeta não está
saiu não sei ao certo
se para que ao procurarem por ele
ele estivesse em não estar
ou se foi de sacangem mesmo

todas as tardes ele sai
mesmo que fique na cama
e vai desafiar os grilos
para um duelo de assobios

estes costumes, a sra sabe
não são muito fáceis de se livrar
o poeta nasce poeta
enquanto o mundo o despoetiza

mas quando o poeta nasce sapo
safo das coisas de cantar
o mundo é que se arvoresce em canto
e o canto, a sra sabe
é a artéria da sabedoria

mas sente-se aí logo ao largo
da coleção de bitucas amassadas
guenta que o poeta só vai longe
porque nunca sai de casa

III


Me lembro: a luz lanosa de uma tarde vinha lhe cobrir o colo de nectarinas. Você pensava - nunca soube o que você pensava. Quando estava só parecia mais um aquário - onde o que vemos é o movimento aleatório das partículas, a superfície sensível do pensamento. E que não se ouse duvidar da ordem geométrica secreta que operava aquela máquina serena, comtemplando as formas de um besouro. Cuspia o fio de linha que lhe sobrara nos beiços enquanto cozia - pela terceira vez - uma velha calça minha. As coisas amarelas tinham seu modo de ser. E você distribuía amarelisse às crianças dos vizinhos, aos gatos que vinham pedir leite e carne moída, às chuvas sem prenúncio, aos dentes de leão.

a morte do sujeito

um sujeito entra no bar
a camisa manchada de sangue
rasgada
a pele do rosto duro
barrenta

pede um fogo-paulista
e um cigarro solto

- tiro de mulher não mata.

tomou de um gole só
bateu com força o copo
e morreu ali mesmo

no meio das putas que reclamavam da baixa freguesia
em cima do caderno esportivo
e de bitucas de cigarros fumados demais

não me represento

penso onde não sou
porque pensar
é lento.

numas


lento
equívoco
entre equívocos

uso o cigarro para respirar

e enquanto espero
expiro

II


Sem o suporte do olhos, abrindo a boca como um pássaro, gemendo coisas em línguas, sim. Relâmpago lento em cavalos de lã. E começava a babar uns nomes, misturar pessoas em quiasmas caprichosos, o tempo voltando - a casavelha onde passarávamos as tardes, lembra? As paredes apodrecendo, trabalhadas pelas mãos frias da visita indesejada. No colo, o jornal espetava os acontecimentos como insetos. Era próprio das notícias serem póstumas, o que te incomodava. Você pegava os rola-bostas num pequeno guardanapo e devolvia-os pra bosta, onde podiam trabalhar e amar. E até um coisinho dum formigo era um passarinho pra você.
Escrevo daqui. Sem as batatas que só você. Com um amor mudo, bruto, inconfessado. Todo teu. E ainda não sei o nome de muitas coisas, então eu descrevo pra você usando uma imitação das coisas. Porque, sabe, não sei senão contar. E contar é meu modo de ficar em silêncio - ando sem sair de mim. Mariposas no lugar dos olhos. Eu sei que você não pode ouvir. Mas tudo é tão pouco que possível me parece belo. E possível sempre é, mesmo que não seja. Existe sempre o velho recurso ao sonho: e daí ele acordou e descobriu que sonhara. E porque não começar assim?

I


É sempre o recomeço. Porque não me engano, o acúmulo, quando não é mera ilusão, é âncora. Porque a busca de uma forma pode estar sub-repticiamente em núpcias com a fuga da forma. E daí se foge em vão, pensando estar livre, no seio da invenção, quando apenas repete-se. Por isso o recomeço, a folha branca. Mas não é que a forma em si mesma seja ruim. O que ela traz de gesso é que preocupa. Então estou à procura de rachaduras por onde possa escoar o que interessa - a matéria do oco no corpo do texto. E se rachaduras não houver, me sirvo de um martelo. Tudo com muita delicadeza, para preservar um mínimo de corpo. Ou talvez eu esteja Novamente repetindo. E se for assim, que seja. Colar as peças é sempre a parte divertida.

outras postagens

Arquivo do blog