hermes

hermes apertou as tâmaras gorduchas. o sol mordia sua pele, subia o sangue enrubescendo as bochechas. pensava na silenciosa e adstringente lesma do tempo, e nas horas que poderia ficar ali mordendo aquela carne doce, esquecendo. apenas esquecendo. talvez porque soubesse que deixar-se estar era correr veloz. sabia a vertigem de permanecer e a falsa mudança de perder-se em cidades desconhecidas: a cada esquina via sempre a mesma esquina nova, a cada volta a novidade do retorno - aquele cahorro não estava ali antes. quede aquelas castanhas? gostava de olhar as feirantes manuseando, falando das vantagens do seu repolho com rigor e precisão. qualquer demora na oferta empobrecia a urgência que devia nascer na cabeça do freguês como um bonsai: grande e pequena. e viva, sobretudo. enquanto desempanhavam a retórica do livre mercado, hermes deixava-se verter pelos aromas e cores e timbres, como a superfície de um lago vê passarem os seixos na correnteza. o rádio ligado sobre um caixote dizia tragédias e os números da loto. a cabeçacoração de hermes sondava o alguém poder prever o futuro e ter esperança ao mesmo tempo. o coraçãocabeça calculava as chances de ganhar sem nunca ter jogado. e dava o mesmo número.

diagnóstico

todos os sintomas do cinema clássico

Baião

o pêndulo oscila
um, dois, um
no quando vai quebranta
no de vir revira


retumba num baião
meu fole adelgaçado
de asma e meu surrado
couro de zabumba

o pêndulo oscila
um, dois, três
um círculo se fantasia
de triângulo reto


trepida na valsa
meu crivo-coração
o fundamento vivo
da alma empedernida

o pêndulo repousa
ponto e vírgula
mas o baile só termina
quando a lua uiva

helena/Helena

helena

me chama pernóstico. eu replico: místico. talvez um tanto histérico. o horóscopo na mão, copo no colo, colo a boca no gim: como eu gostaria de saber o fim. você me olha de solsaio [sempre quis dizer solsaio]: trágico. e nisso você tem razão. saber o fim: olha bem, essa bebida acaba. eu acabo, você, teus olhos de mel, tuas coxas, tudo. e ninguém precisa me dizer. eu apenas leio o mundo. hermético. como um tuppleware? não helena, como um alquimista. eu transmuto por exemplo este fumo em fogo, o fogo em cinzas e fumaça. e depois o câncer, sabe. e este me transmuta em nada. é um poder banal, mas que as pessoas ignoram pelo prazer da inocência: não fui eu quem quis, foi acidente... sei. quando morre alguém fica sempre aquela culpa e ninguém sabe de onde vem. finge não saber. sim a culpa é sempre tua. por que você existe. por que estava lá pra ver. porque deu nome a tudo e tudo morre por ter nome. se você não se chamasse helena era valquíria ou magdalena ou antônia, josefina, claudia, aurorofélia sim. nome de mulher, e mulher morre. morre tudo, helena, até pedra. ergo meus olhos por sobre o caderno esportivo, helena enfiada no computador. como dói ver uma mulher tão linda concentrada desse jeito. te queria distraída, helena. como vapor espiralado, música distante, te queria assim um bicho lento que a gente olha e fica lento junto. mas você é que nem pássaro. todos os teus sentidos têm uma importância vital. presa fácil mas veloz. não pisca. nunca vi tuas pálpebras, por exemplo. quando você dorme fica uma névoa no teu rosto. só dá pra ver o véu translúcido que te separa do mundo. quando desperta o sol ascende. quando e somente se. porque helena, se você dormisse para sempre nem amanhecia. tenho certeza, já disse, eu leio. então você é um tipo de motor, teu chefe te explora e olha teu decote. ele não sabe que o sol é culpa tua, que teu nome no fim é tua causa mortis. o babaca diz, helena traz pra mim aqueles relatórios, confere os contra-cheques, checa o malote, solta o cabelo. como se apertasse botões em você, o idiota. estrambólico, você se deixa cair sorrindo. eu me levanto e pulo pra debaixo dos teus cabelos. uma coisa que não aprendi a ler é o corpo de helena. toco a luz baixa nos seus flancos, acaricio as réstias projetadas, os reflexos moventes da rua que atravessam o tempo deslizando no seu torso dóreo. fugidia sempre, esguio enigma. toco tua coisa, enfim, e você quase que some, pirilampa como estrobo. eu abro a densa cortina de cabelos que procuram minha boca, e, assim no contrapé quase vejo suas pálpebras, e é como se o tecido do real se arrebentasse. então teu nome já não te determina. um tipo de compreensão que pretendo te roubar um dia.  


Helena


Sim. Vou porque me pese o tempo. Porque já doure meu sol de setembro tua pele de maio. Porque  meu calendário amofine ante a tartaruga imóvel que não pára de crescer:
- Sou eu que envelheço, ou é minha cidade? Sim. Vou porque meus olhos transbordem futuro enquanto meus peitos caem. Porque eu tenha o ofício das nuvens, porque meu ventre esteja úmido e capaz de anelo. Poque Helena, me criei do nada: o nada da tua mão, pois há o abismo, o nada dos teus braços caninos, das tuas costelas, sim. O nada enrodilhado na concha fria da tua orelha, no Teu, que tanto gostavas que eu nele me esfregasse toda, manhosa: eu Helena, parida dos poros da ausência, Helena ciosa do pleno, das secreções terrenas, verdejante: me vou. Porque para nascer do impossível tive que assassiná-lo com meus dentes. E é com estes mesmos dentes que agora sorrio quando imagino a tua cara de cão, as mãos congeladas no gesto da procura de um copo que cai, e um murmúrio abafado que não te chega a sair da garganta: sou eu, Helena de vidro, e caio das tuas mãos em um mosaico cristalino.

V

Eis a minha pálida membrana. Meu finito fazer-me. Eis a parte onde no meu corpo moram os homúnculos que guardam meu verbo. Porque no resto, há minha vontade de viver. Meu verbo é o que toca o imortal, e por isso, também a morte. A morte é a pura coisidade, o antes que a lâmina descesse cindindo os corpos, quando o abismo e sua vertigem eram um mesmo animal. E por isso minhas mãos tremem. Com elas opero, destrincho ervas e carne, escrevo meu nome. Com as mãos - pendentes nos lados do corpo, âncoras quando se não sabe o que delas, remos, patas, continuidade da voz minguada no branco - terminação de um longo  declive do dizer. 
Mas antes - desenhando todo o tempo, eu mergulhava no silêncio uterino que deve ter a morte. Ou - a coincidência entre ser e agir me sustinha no vão inefável. Eu era o processo que desempenhava, minhas mãos eram definitivamente um caminho. Os caminhos, se me lembro: era dentro de mim que aquelas árvores escondiam suas longas raízes. Eu lhes sabia porque éramos caminho um no outro. O pequeno limoeiro que vi nascer de um galho que arrastava pelas ruas como a um arado, afofando a negridão do asfalto, numa tarde tristinha de domingo. Depois, meu avô içou na terra o que veio a ser um frequentado limoeiro-taiti. Com as mãos, num gesto que parecia ter esperado por séculos. O limoeiro vive, caminho nascido das tuas mãos.

rosa do ventos


bússola no bulbo do vento
me inventa logo um sul aí
porque eu aqui
estou sem sorte

outras postagens

Arquivo do blog