ariadne

girandolava. amava a cor que fazia no de tarde. seus olhos perdiam o pra lá fazendo a curva. o sol. todo aquele amarelho afundando no colo do longe. tudo. ariadne, outrora tão pequena coisa, agora um perfume que não sai da manga de flanela, um nada dos olhos dela nos olhos dele desligados no infinito. as mãos fechadas tentavam condensar a vertigem, apertadas até sangrar. desaparecer como espuma no avesso do mundo, como podia essa coisa? aqueles jequitibás cheios de musgo e silêncio, ariadne engalfinhada nas raízes cheirando um livro: um intervalo entre o vazio. aquele homem dormindo na rua outro dia usava as meias da namorada morta, deformadas nos seus pés. falando sozinho nos mercados, trabalhando como podia, fazendo pesquisas de interesse para uma empresa de sabonetes. morrendo todos os dias, se transformando sempre em outra coisa. um ódio do mundo. palavras duras. da última vez que o viu, seus olhos haviam quase desaparecido por trás da crosta de pele. não existe luto senão o de nós próprios. nós, que ficamos. e vemos todos os dias as mesmas coisas, minguando como elas, cheios de lembranças e sentimentos sem nome. presos na finitude de cores e palavras, aguardando o arremate final nas incertezas que alicerçam todo recuo. por hora, deixava-se escorrer atravéz das fendas dos olhos, em forma de rio, quente ainda, mas refrescando depois, por que até o calor acaba. a cabeça ficava tonta com seus rodopios, e era bom perder o centro, cair, recomeçar. os pés sobre a terra eram tudo que ele tinha.

são carlos, março de 2012.

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