tonho dodói

velho como o vento, jurava ter descabaçado a lua. os olhos vítreos brincando os vultos. incapazes de cena: pro sinhor vê, que de tanta lonjura despenquei da pretidão, e cá o joelho instrupiô. por um momento movia os lábios em silêncio, cheios de sulcos no redor. a língua dançava entre os raros dentes, recordava. o dedo apontando - foi quando em menino, nem tinha aivão nem nada. mãezinha me tocou pro mato, modo eu catar estrela, contava. alva música ondulava no sonhamento do velho, no contra-ocre da terra batida. como de dentro de um aquário, sondava as coisas turvas estrangeiras, cheias de luzes: pequenas estrelinhas nas mãos dos rapazes e das meninas que iam e vinham na rua que ele vira crescer. eles levavam as luzinhas ao rosto e falavam. como conversando com candeeiros. mas isso ele também fez muito, de menino. mastigou, cuspiu, levou o braço à boca. a lua nunca brilhou tanto como naquele dia, explicou. ele também ficou bem uns sete meses coberto por um pó de luz que banho nenhum tirava. passava os dias sonhando, escrevinhando coisas. os meninos apontavam, olha lá o tonho dodói. mas ele sabia que encantamento não era doença. que doença fazia a gente amarelo, fraco, molengo. isso não podia ser, sabia. quando na lua subiram uns homens, ele ficou injuriado: pisarem no meu bem, espetando coisas, tirando pedaço. triste, ele andou por dias. quando voltou era outro. diz-se que o menino ficou e mandou no lugar este senhor, para sentar nesta cadeira de vime, mastigar mato e cuspir e lembrar. dizem também que o pó de luz formou um rastro, e que se a gente seguir, vai encontrar o menino atracado à lua, trêmulos os dois, de um amor mais verdadeiro que o mundo. coisa que se conta por aqui, e que não se inventa duvidar.  

são carlos, março de 2012.

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