arroto

a poesia acontece aqui fora
perto das latas
e das sacolas plásticas
entre o riso de marina
e um besouro no jardim

nunca um poema reinvindica biblioteca
que é pro poema como que o jazigo
onde os pranteadores vêm nutrir a fleuma
sem jamais tocar
sua matéria indócil

também não vem de um dentro
que a estrutura do poeta é mera humana víscera:
o poema não habita o abscôndito
antes flana entre os quintais
onde um grilo canta sem ser visto
ou nos bares onde um capiau cochila


nas roupas batidas na pedra
no amor nascido e já enfermo
de uma repentina adolescente

o poema espreita os tolos
e se lhes alfineta a barra
das calças, e sobe pelas pernas
dedilhando as vértebras
ensaiando já a música
que lhe dará corpo


mas às vezes se apreguiça

e vira arroto.

encontro no turbilhão



estou do avesso
aqui não tem nome
você não sei
se pelo fio
de luz
corporifica o canto

mas o súbito
anjo ventríloquo
me imputa o ato livre
e cá estou
absurdo
dissolvido
no protoplasma
em que memória
e mundo
são ditos o mesmo

a nuvem de pássaros
insiste no gris
e turva um horizonte
bailarino
onde toda coisa
é um encontro
com toda outra

mas estou velho para esboços
e esqueço teu rosto
na quadratura de um círculo

poemapedra

escrevi este poema
sem beleza ou rima
sem pudor
nem valor de mercado

um poema até
devo confessar
sem graça

um poemapedra
para uma voz-parábola
cujo destino me ultrapassa

com este poema embrulhe um peixe
enxugue as lágrimas
enfie este poema no cóxis
coma este poema
faça com ele um tsuru
muita coisa com ele
não pode mesmo ser feita
mas o pouco que se pode
faça

pegue por exemplo
com a paixão dos entediados
e atire na vidraça
na polícia
dê de comer aos pombos
aos andarilhos
em pequenos picadilhos indigestos

ou apenas abandone-o
como o caminho abandona
o caminhante

outras postagens

Arquivo do blog