grão


"no princípio era o caos..."



esculpir o silêncio num corpo denso de mármore.
encontrar do silêncio a primeira pele.
embeber a pele do silêncio em azeite.
acarinhar com fogo a pele do silêncio.
envolvê-lo num arco de zinco e alumínio.
do silêncio ver emergir a necessidade do pandeiro.
pleno, fluente na língua dos primeiros santos, couro teso e grávido de estrondo.
do casamento dos sons a dança ver-se erguer em barro.
talhadas pelo tempo as bailarinas incorpóreas desenham no céu o trajeto dos planetas
ponteiros de um relógio epiléptico.
presença luscopaca semilágrima do caos secretada o samba é a silhueta silibina recortada contra o fundo de um murmúrio indiferenciado.
passam os carros, estilhaçam-se os copos, riem as damas, os rapazes;
o samba
navalha cujo fio tece um bordão, um trinado,
uma mortalha, surge contra a fuligem burocrática da cidade e macula de esperma e sangue
os relatórios de caixa ao senhor
diretor.
- amor e ódio coabitam a boca da noite. é sábado.
a síncope do samba reverbera no concreto armado.

de barriga para cima, um cão sonha um mundo de comida.

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